O artista fez publicidade?
Estive ontem numa palestra com um designer renomado de Fortaleza e não pude evitar a empolgação com a beleza e a originalidade dos trabalhos dele. Quando falo em originalidade, falo em uso de diversas influências na criação de algo distinto, reconhecendo a importância de referências estabelecidas para a concepção do novo.
E relembrando alguns trabalhos de outros designers que conheço e conheci, todos empregados na publicidade, por óbvias e impositivas razões financeiras, invariavelmente, me pergunto como seria legal se alguns deles largassem a publicidade e se enveredassem pelas artes, mostrando que a capacidade criativa ainda tem uma função cultural mais importante do que a função “comercial”.
A beleza e a obviedade.

Admirar o belo é algo que todos nós fazemos, invariavelmente. Uma pessoa bonita, uma paisagem, uma obra de arte. É uma questão instintiva. Não há como evitar.
Desde quando comecei a observar com olhar mais crítico as concepções de beleza ao meu redor, senti um certo incômodo com a forma como o senso coletivo tem impedido as pessoas de verem além do óbvio.

I’m a puppet on a string
Tracy island, time-traveling diamond
Could’ve shaped heartaches
They’ ve come to find ya fall in some velvet morning
Years too late
She’s a silver lining, lone ranger riding
Through an open space
In my mind, when she’s not right there beside me
I go crazy cause here isn’t where I wanna be
And satisfaction feels like a distant memory
And I can’t help myself,
All I wanna hear her say is “Are you mine?”
Well, are you mine?
Are you mine?
Are you mine? Alright
I guess what I’m trying to say is I need the deep end
Keep imagining meeting, wished away entire lifetimes
Unfair we’re not somewhere
Misbehaving for days
Great escape, lost track of time and space
She’s a silver lining, climbing on my desire
And I go crazy cause here isn’t where I wanna be
And satisfaction feels like a distant memory
And I can’t help myself,
All I wanna hear her say is “Are you mine?”
Well, are you mine?
Are you mine tomorrow?
Are you mine? Or just mine tonight?
Are you mine? Are you mine?
And the thrill of the chase moves in mysterious ways
So in case I’m mistaken,
I just wanna hear you say you got me, baby
Are you mine?
She’s a silver lining, lone ranger riding
Through an open space
In my mind when she’s not right there beside me
I go crazy cause here isn’t where I wanna be
And satisfaction feels like a distant memory
And I can’t help myself,
All I wanna hear her say is “Are you mine?”
Well, are you mine?
Are you mine tomorrow?
Are you mine? Or just mine tonight?
Are you mine?
Are you mine tomorrow?
Or just mine tonight?
R U Mine, By Arctic Monkeys
A política muito além da causa gay.
Um cara que tem me chamado muito a atenção é o ex-BBB e atual deputado federal Jean Willys. Gay assumido, militante não apenas da causa relacionada aos direitos de seus pares, mas de causas realmente nobres em uma sociedade com valores questionáveis.
O que mais me espanta nas qualidades demonstradas pelo deputado é a abismal distância que o separa em termos de ética e bom senso da enorme maioria dos ilustríssimos parlamentares no poder.
Mas ainda há espaço para uma surpresa maior. Ele, apesar de demonstrar tantas qualidades, nem chega a ser um cara genial, daqueles que você fica embasbacado de ouvir falando. Ele é coloquial, simplório, por vezes até ingênuo. E talvez essa seja a real qualidade dele: ser autêntico e fiel às suas crenças, raízes e convicções.
Imagino mais pessoas como ele no poder. Aquele cara ou aquela mulher que a gente conhece e admira pela clareza e substância das ideias. Seja de esquerda, centro ou de direita. É preciso qualificar as discussões políticas do país com pessoas admiráveis. E admirabilidade é algo em falta na política brasileira (exceção aos mortos, que viram santos).
Falta interesse das pessoas certas pela política ou a política afasta as pessoas mais sérias do poder? Desde sempre soube que a política é um campo minado, sujo e corrupto. E que muitos dos que entram inocentes, saem culpados de algo. Seria bom ter alguém mais para admirar nessa seara.
No link abaixo uma matéria publicada na Rolling Stone sobre o Jean Willys.
http://www.rollingstone.com.br/edicao/59/a-cruzada-libertadora-de-jean-wyllys
Eu conheci essa música sem saber de quem era. Foi através da versão da Gal Costa, chamada ‘Negro Amor’. Lembro do dia (não a data), onde foi, com quem estava. Fiquei hipnotizado pela melodia. Anos, muitos anos depois, descobri que era do Bob Dylan. A Gal perdeu uns pontos, pois achei que a música fosse dela. Mas o Dylan me cativou definitivamente com ela. Apesar de já ter escutado várias músicas dele antes, ‘It’s All Over Now Baby Blue’ havia passado batida. ‘Blowin’ In The Wind’ eu inclusive já enjoei faz muito tempo. Mas como quase tudo que o velho Zimmerman cria beira o divino, mesmo com aquela voz ingrata, suas palavras soam como que saídas de um grande compêndio de sabedoria filosófico-religioso.
![]()
Ontem à noite, estive com uns amigos de uma faixa etária cerca de 15 anos menor que a minha. O “programa” eu considero desprezível: beber de madrugada na porta de um supermercado 24 horas. Mas entendo. Se eu ainda morasse com meus pais, provavelmente faria o mesmo. O diferencial foi que aos 22 anos eles ouviam Bob Dylan, empolgados, murmurando as letras, balançando a cabeça, batendo o pé e comentando um com o outro: “Dylan é foda, véi!”.
Ainda há salvação.
Causos do véi Danilo.
Eu costumava ouvir Frank Sinatra no meu 1º carro, um simpático e invariavelmente lotado Fusca 1975, sempre na volta das baladas e festas adolescentes que eu vergonhosamente frequentava. Colocava o som a todo volume e cantava até a voz falhar. E se o meu lado “paredão de som” tinha suas vantagens em comparação com o “resto” da época, que dirá hoje, né? Certa vez passou um senhor grisalho num carro ao lado que baixou o vidro da janela e cantou junto, gesticulando e sorrindo. Meus amigos e colegas de farra da época, sempre riam de mim e da minha empolgação com a música. Mas era divertido. Ainda seria hoje.
E essa música é, a bem dizer, um epitáfio, um mea culpa de macho, com tão poucos arrependimentos que nem vale a pena citar, como diz a letra. Admito, porém, que acho as cordas da parte lenta meio breguinhas e melosas. Sempre achei que merecia um piano de macho alfa ali, mais digno pro Mr. Sinatra. Mas penso que a intenção era criar um contrapeso à artilharia pesada da música quando a orquestra começa a tocar inteira, com a força de uma manada de mamutes gigantes destruidores, trotando com pés pesados junto com a letra de arrebentar.
Mr. Sinatra, thank you very much! I’m a better man because of you, sir!
O meu adeus a Adam Yauch e a importância do Beastie Boys.
Garotos brancos tocando música de negro? Já ouvimos essa estória antes. Os Beastie Boys tiveram pro hip hop importância semelhante ao Elvis pro rock. Em ambos os casos, eram artistas brancos trazendo um ritmo até então discriminado, apesar de estabelecido em suas bases e sua iconoclastia, ao topo das paradas.
Os EUA, país que até pouquíssimo tempo permitia a discriminação racial, e o fazia duramente, sempre precisou de gente branca, anglo-saxã e protestante, ou WASP em inglês, para validar qualquer movimento sócio-cultural e este se tornasse palatável para as massas. Com o rock foi assim, com a música eletrônica também, com o hip hop e o rap idem. O mesmo vale para ritmos oriundos de guetos.
O que os Beastie Boys fizeram foi muito mais importante do que muitos outros artistas tidos como medalhões inquestionáveis da indústria musical. Abrir espaço para uma nova vertente cultural é uma tarefa árdua na indústria do entretenimento. E o Beastie Boys fez isso com força bruta, às vezes desmedida e muitas vezes irresistível.
Tenho uma teoria de que toda novidade artística necessita de validação similar junto às massas, que só reconhecem e aceitam o novo, quando este se torna parte de algo conhecido. Nesse caso, vejo uma função pouco comum em artistas como U2 e Madonna, só para citar esses dois e exemplifico.
No meio da década de 90, após o fim do grunge e o estouro do britpop, um novo movimento de música eletrônica surgia. Sim, a música eletrônica já era relativamente bem estabelecida e reconhecida por outros artistas e outras sonoridades, mas naquele momento surgiam nomes como Prodigy e Chemichal Brothers com uma sonoridade mais forte, marcante e agressiva.

Até que nomes como U2 e Madonna registraram em disco essas influências, apresentando-as à grande massa, que assim começou a absorver e aceitar a validade do novo estilo, permitindo-o evoluir de forma sólida.
O caso do Beastie Boys é um pouco mais peculiar, pois o hip hop vinha atrelado a um ingrediente racial e de difícil aceitação pelo público médio WASP dos EUA da era Reagan. Para dificultar ainda mais a digestão de sua sonoridade o Beastie Boys não abria mão de gravar faixas hardcore violentíssimas, revoltadas e até mesmo revoltantes para alguns.
Mesmo com toda essa complicada mistura de elementos o Beastie Boys levou o hip hop à casa de seus similares, moleques bem nascidos e arrogantes tipicamente burgueses, mas ainda assim, formadores de opinião. E por consequência, às massas e à fama internacional.
Os Beastie Boys evoluíram musicalmente, buscando inspirações no Jazz, no Funk, no Rock e até mesmo em ritmos latinos. Evoluíram também como pessoas, distanciando-se da imaturidade adolescente com um senso de responsabilidade como artistas mega incensados que se tornaram.
Eu não sei distinguir o papel do MCA no que o Beastie Boys fez. Para mim, é um trabalho coeso demais para se distinguir quem fez ou faz o quê, mas a força da música feita por eles é inquestionável e seus trabalhos e mensagens ficam no ar para inspirar novos artistas a ousarem ser autênticos.
RIP Adam Yauch!

Esse vídeo é o meu favorito de uma das várias músicas gravadas em formato acústico, como material extra, para um DVD do The Cure que compila os clipes da carreira da banda, muito obviamente entitulado de “Greatest Hits”.
Além do fato de ser um belíssimo extra, tanto em termos visual, quanto musical, o conceito desse extra sempre exerceu grande fascínio em mim pela crueza que exponencia as minúcias da arte (de novo, visual e musical).
Os elementos são simples: preto e branco, grandes contrastes, foco variado, ambiente controlado e captura de detalhes. Um baita registro de arte sendo feita. Em contraste a essa formatação existe toda a pirotecnia de registros visuais de bandas como U2, Pink Floyd e outros. Sem juízo de valores, apenas como contraponto.
Há outros ótimos exemplos dessa mistura. Seguindo uma linha praticamente igual há o vídeo de “Fell On Black Days” do Soundgarden.
Coincidentemente, gravando uma canção original do Soundgarden, Johnny Cash registrou “Rusty Cage” usando preto e branco na metade inicial e cores saturadas na metade final, mas ainda assim com um resultado final muito bonito (e digno pro “The Man In Black”).
Mudando um pouco o contexto, tem o sublime vídeo de Paul McCartney para “My Valentine”, onde ex-Beatle nem dá as caras, mas toma as rédeas como diretor e registra Natalie Portman e Johnny Depp interpretando a letra na linguagem de sinais¹.
Em longa metragem, fica quase óbvio falar na cinebiografia do falecido cantor Ian Curtis (Joy Division) “Control”, do fotógrafo e cineasta holândes Anton Corbijn (voltarei a citá-lo), onde cada frame me fez suspirar pela força que remete . Além dele, outros exemplos tão óbvios seriam o recente “O Artista” e trágico “A Lista de Schindler”.
Indo mais fundo, e distante no tempo, no conceito visual de P&B + Contraste + Detalhes no cinema, é imprescindível citar “Cidadão Kane” de Orson Wells, ”Metrópolis” e “M” de Fritz Lang, este último, o nome mais importante do enlouquecido/enlouquecedor cinema expressionista alemão.
Outra referência forte que tenho, dentro do mesmo conceito, vem de uma arte “estática”, apesar de sequêncial: os quadrinhos. O consumo dessa linguagem visual nos quadrinhos é um tanto “difícil” para quem está acostumado ao mundo das cores, principalmente nos tempos da colorização digital dos quadrinhos de hoje. Ultrapassada essa barreira, torna-se uma forma de arte inatingível por paletas menos sofisticadas.
Dos que conheço melhor cito Frank Miller (Sin City), Will Eisner (The Spirit, mas principalmente pela obra que me introduziu ao mestre, The Building), Robert Crumb (The Blues) e os vários artistas que desenharam para a extinta versão em preto e branco de “A Espada Selvagem de Conan”, especialmente, John Buscema, Frank Frazetta e Barry Windsor-Smith.
No Brasil, ainda possuo algumas edições antigas de revistas de humor ácido, politizado e despudorado de artistas do quilate de Angeli, Glauco e Laerte, que me abriram a cabeça para trabalhos mais provocativos.
Não posso deixar de falar também em fotografia e, falando nisso, não posso deixar de citar nomes como Anton Corbijn (de novo), Annie Leibovitz (apesar de ser igualmente reconhecida pelo talento com as cores), Henri Cartier-Bresson e os brasileiros Rui Mendes e Sebastião Salgado.
Só posso terminar esse texto indicando a todos conhecerem, ou revisitarem, as referências citadas e experimentarem formas novas de apreciação artística. Esses artistas e seus trabalhos, aleatoriamente e em momentos diferentes da vida, me abriram a mente e o coração para a força da imagem.
- x -
1 - Agradecimentos ao João Gabriel pela inspiração inicial desse texto: o vídeo do Paul, postado hoje no Facebook.
2 - Este texto é dedicado à minha amiga querida Juliana Ribeiro, com quem passo horas discutindo sobre cinema e fotografia.
[Discussões e comentários no Facebook]
[LISTA] Colaborações musicais em projetos paralelos

Ontem eu esbarrei num show do projeto paralelo da Beth Gibbons no YouTube. Ao assistir a performance da cantora do Portishead, pensei: “Eu conheço alguns bons discos de projetos paralelos que envolviam colaborações com outros artistas, que mereceriam a atenção de quem gosta de boa música”. Resolvi listar alguns discos (não apenas uma faixa - DISCOS INTEIROS) que eu conheço bem (posso falar com mais propriedade).
Um disco de uma banda é como a capa de uma revista, onde usam photoshop pra dar uma melhorada no aspecto da modelo da capa.
O show é como a modelo no desfile de moda: tome maquiagem, alfinetes pra roupa ficar justinha, arrumam o cabelo com secador de 10 mil watts e a vestem numas roupas que a modelo nunca usaria na rua.
Uma banda, ao vivo no estúdio, é aquela modelo, saída do banho, sem maquiagem alguma, levemente assanhada, enxugando as madeixas, andando saltitante, só de calcinha de algodão no seu quarto, bem REAL THING.
Tudo isso só pra dizer que o Foo Fighters soltou no You Tube um vídeo com eles tocando, ao vivo no estúdio da banda, o novo disco deles, Wasting Light, na íntegra. Absolutamente REAL THING.
Assistam enquanto não tiram do ar. Eu, vou é baixar essa preciosidade DJÁ, converter em formato DVD, gravar numa bolachinha metálica, fazer uma capinha personalizada e arquivar, orgulhosamente, na estante.
MUST HAVE, definitivamente!